A Dança da Dualidade.

Créditos da imagem: Nithyananda Sacred ARTS Univercity. Créditos da imagem: Nithyananda Sacred ARTS Univercity.

Uma breve análise sobre o texto purânico “A Dança de Śiva no céu”.                    

As culturas orientais sempre surpreendem a modernidade quanto aos conhecimentos que possuem, advindos de tempos remotos, onde o registro escrito quase não existia (ou no caso de alguns lugares como a Península Arábica, sequer existiam). A oralidade era a única forma de manter acesa a luz dos ensinamentos dos ancestrais, era como se preservava a cultura. A Índia é um exemplo disso. Porém, também na Índia, a escrita tornou-se um meio mais viável para a preservação dos ensinamentos religiosos e filosóficos de variadas perspectivas. A mais importante delas, talvez, sejam os purāṇas.

“Uma história sobre os dias antigos”, seria a tradução mais aproximada deste termo sânscrito. Esses textos são as fontes mais antigas que se tem dos mitos hindus. Mas, acima de tudo, o purāṇa é um gênero e é nele que se proliferou o texto mítico. Ele não contempla apenas mitologia, mas também textos litúrgicos, instruções técnicas sobre vários assuntos (astronomia, poética, etc.). São textos manuais de sacerdotes de tempos populares, que precisam saber sobre tudo. Diferente desse gênero, por exemplo, seria o itihāsa que conta “histórias sobre eventos”. Um representante do itihāsa é o Mahābhārata, que conta “a história do povo de bhārata”, e é considerado um texto verídico que se aproxima ao que se conhece ocidentalmente por gênero épico.

Vale lembrar que a religião que se chama de “hinduísmo”, tem uma literatura de forte teor devocional, de ênfase amorosa entre devoto e divindade. E um meio de exercer essa devoção é por meio do exercício narrativo.

Os manuscritos mais antigos que se tem notícia são do século VII. Quanto mais antigo o texto, mais ortodoxo.

Considera-se que os textos purânicos têm como base a tradição védica e, mais recentemente, tem sido considerado que a tradição tântrica influenciou os novos discursos das outras duas escolas[1], posto que considera-se que a composição dos textos purânicos, por exemplo, se deram ao longo do tempo, ou seja, não conheceram apenas um autor. Claramente, há diferenças entre as produções literárias dessas três perspectivas: na tradição védica não há a relação devocional amorosa entre o deus e o devoto, senão que tudo é ritual, é uma relação de interesse. É interessante notar, ainda, que os purāṇa reverberam na história indiana, como nos textos de yoga. Escritos do haṭhayoga, por exemplo, consideram os textos purânicos como exotéricos e, sendo assim, de baixo valor. Isso seria uma influência tântrica, que se vê como fonte atual e esotérica[2]. O interessante, como mostra Gonçalves (2001) é que:

Sob os diferentes graus de comparação, os discursos tântrico e purânico compartilham a mesma estratégia discursiva, que é a afirmação da própria virtude em função da inadequação de seu outro (115).

Mas, de volta aos purāṇas, eles são divididos em dezoito conjuntos e, dentre eles, está o Kūrmapurāṇa, onde se encontra o episódio “A dança de Śiva no céu”, objeto de análise deste artigo.

A tradução utilizada neste artigo está disponível na tese de doutorado de Gonçalves (2009), Dizeres das antiguidades – a arquitetura discursiva da literatura sânscrita purânica exemplificada pelo mito da Grande Deusa (FFLCH/USP).

A Dança da Dualidade.

Este texto é narrado por vyāsa, que abre o texto informando que o “senhor supremo” dançou para mostrar sua “forma sublime”, porém, deve-se ressaltar que somente os yogin conseguiram presenciar esse acontecimento, pois eles, perseguidores da verdade, “conhecedores da essência do Yoga”, conseguem ter uma mente controlada. É como se o ser divino os recompensasse pela dedicação oferecida a ele.

Śiva é descrito como multifacetado, ou com muitas personalidades, a mais dominante nos purāṇas, segundo Van Buitenen (1998) é a de yogin. Nesse texto parece que essa personalidade está expressa, posto que ele se mostra em toda sua beleza justamente para os yogins.

Em seguida, diz-se que os sábios viram Śiva dançando sobre si mesmo. Isso porque ele é a força (shákti) que movimenta o mundo. Segundo Van Buitenen em Classical Hindu Mythology (1998), Śiva é identificado com os princípios de Prakṛti e Puruṣa, que são dois elementos desenvolvidos pela escola Sāṃkhya em sua teoria da evolução. Isso, talvez, só seja possível pela dualidade presente nos purāṇas, mesmo na imagem de Śiva, por exemplo, que possui uma personalidade furiosa e incontrolável e outra calma e controlada.

Ainda sobre os dois elementos citados, Puruṣa seria o potencial guardado, imanifesto e Prakṛti seria a realização corporal desse poder. Esses princípios adotados pelo Sāṃkhya, demonstram a dualidade desta escola.

Em seguida, evidencia-se os efeitos da dança de Śiva: remove-se o medo e a ignorância. Isso pode significar que ele, além de ser a verdade, a mostra, ou seja, ele constrói e destrói māyā.

Além disso, fala-se que a devoção (bhakti) leva os yogins a presenciar a dança de Śiva. O conceito de bhakti é muito importante nos purāṇa como um todo, pois evidencia o elemento devocional da tradição. Bhakit é a devoção no sentido de intensificação do sentimento amoroso à divindade.

Como já mencionado, além de conter os ditos mitos hindus, os purāṇas também possuem orações, instruções técnicas, etc., e geralmente isso se dá pela adoração aos deuses, por isso também existem indicações de hinos a serem cantados, oferendas a serem dadas, etc. (Van Buitenen , 1998, p. 10).

Nas passagens seguintes, chama-se Śiva de Rudra. Van Buitenen (1998) observa que o primeiro nome se dá ao caráter benévolo da divindade e o segundo quando ela está furiosa, porém na passagem que se estuda neste artigo, não é possível fazer essa distinção, senão que se tem uma mistura das duas personalidades, pois caracteriza-se Rudra como “benévolo”, “libertador” e, em seguida, dizem que ele possui “presas terríveis”. Isso demonstra, outra vez, a riqueza de dualidades presente no purāṇa.

Junto ao anterior, segue outra prova da dualidade purânica. Rudra (ou Śiva), produz do ovo de Brahman, tudo o que existe no mundo, mas também pode destruir sua criação, com seu “fogo tenebroso”. Aqui faz-se referência, outra vez, aos princípios de Prakṛti e Puruṣa, uma vez que o ovo transformou-se no universo graças à energia em potência contida dentro dele. Além disso, com sua dança, Śiva destrói a era atual para que logo outra comece. Isso se refere aos yuga, às eras cósmicas descritas como um das formas de medição do tempo nos purāṇas. São consideradas quatro eras: Kṛta, Tretā, Dvāpara e Kali. Há uma ordem decrescente entre elas tanto na quantidade de anos quanto nas virtudes entre os homens, o que também prejudica a sua qualidade de vida. Vale ressaltar, ainda, que isso segue um movimento cíclico natural. Até mesmo essa decadência é inevitável, ao final da era Kali, reinicia-se o ciclo em uma nova Kṛta.

Ainda sobre a dualidade, o texto se refere a Śiva como “o esposo de Umã”. A dualidade faz parte da esposa da divindade, conhecida também como Durgā, uma personalidade mais feroz em relação à primeira. É conhecida ainda como Devī, “a deusa”, que une as duas personalidades, sublime e feroz. Van Buitenen evidencia, além disso, que ela é conhecida como shákti, considerada como a energia motivadora do universo sem a qual até mesmo Śiva é impotente para agir[3]. Porém, vale ressaltar a face Devī da esposa de Śiva.

Em um dos purāṇas, o Markandeya, existe um texto chamado Devīmāhātmyam, nele fala-se sobre a “grande deusa”, atualmente é recitado para Durgā que, conforme mencionado acima, refere-se à esposa de Śiva. Nesse texto, porém, a imagem da deusa ganha mais importância, pois é tida como a fonte primária da criação do mundo e também de sua destruição, englobando uma dualidade já conhecida dos purāṇas. Segundo Coburn (1998):

O Devīmāhātmyam parece refletir a perspectiva das primeiras Upaniṣad de que é o conhecimento místico da verdade suprema que libera alguém do processo reencarnacionista. Mas algo está claramente em andamento também, posto que Devī não é apenas o conhecimento que liberta alguém. Ela é também a grande ilusão (māhāmāyā) que mantem alguém aprisionado (33) [tradução nossa].

Porém, esse paradoxo, ainda segundo Coburn, não é questionado, senão que é reverenciado. O autor ainda passeia por várias acepções e mitos sobre a “Grande Deusa”, porém este não é o objeto de estudo deste artigo, ainda que seja interessante demonstrar que a dualidade dos purāṇas permeia diversos elementos.

Além de todas essas características de Śiva, vale ressaltar que ele é o “alicerce do dharma”, um dos componentes essenciais dos textos purânicos. Esse termo refere-se ao dever social. O termo parece ser uma herança da perspectiva brahmānica e de seu ordenamento social pelas castas, sendo que a casta a que eles pertencem é a mais alta. Essa moral social é encontrada no Bhagavad-gītā e no Mānava-Dharmaśāstra, onde pode-se encontrar todas as especificações para o comportamento de cada casta, escrito pela figura mítica de Manu.

Após essa última passagem, Śiva é caracterizado como o próprio ātman, ou seja, o princípio eterno presente em todos os seres. Mas esse ātman não é apenas potência, ele está “em completa realização”, o que permite dizer que a dança de Śiva é a expressão, ou realização do ātman.

Segue-se a narrativa referindo-se a uma divindade que tem “o lótus no umbigo”. Tal ser é Viṣṇu. Para explicar essa passagem, deve-se lembrar os mitos de criação do mundo. Um deles centra-se em Viṣṇu, nesta versão, chamado de Nārāyaṇa. Viṣṇu dormia sobre a serpente Ananta, que se encontrava em uma espécie de oceano cósmico, onde se ocultavam todos fenômenos em potencial. Então, um lótus cresce do umbigo de Viṣṇu e dentro deste lótus surge Brahma, de quem emanam os quatro elementos da criação[4].

Então uma segunda parte do texto começa. Nela, os sábios falam. Nesse ponto fica claro o elemento da devoção tão presente nos purāṇas. Eles exortam a imagem de Śiva, repetindo características citadas no discurso de vyāsa, tais como: “transmissor do Yoga eterno”, “purificador”, dizem que o “feto dourado” derivou dele (referência ao mito de criação do ovo cósmico[5]), “o âmago do universo”. Dizem ainda que ele habita em seus corações, referência clara ao ātman, o princípio eterno.

Seguem descrevendo o poder destruidor de Śiva e ao mesmo tempo seu potencial criador, o que pode ser entendido, mais uma vez, com o regozijo na dualidade, ou seja, na não exclusão desse paradoxo. Pedem proteção à divindade que, ao final, volta a sua forma divina e assume “o estado de latência material”.

Conclusão.

Os elementos considerados por Van Buitenen, essenciais do gênero purāṇa (os deuses, bhakti e dharma) se fazem presente nesse texto do Kūrmapurāṇa. Fica clara a infinidade de dualidades que constituem o texto. A imagem de Śiva e de sua esposa carregam os paradoxos do bem e do mal, do belo e do feio, do positivo e do negativo, do criador e do destruidor.

Junto a isso, ao contrário do que possa sugerir o pensamento moderno, o paradoxo é aceito e não é um problema, senão que mostra a grandiosidade destas figuras mitológicas indianas.

Bibliografia.

Chakrabarti, Kunal (2001). Religious Process – The Purāṇas and the Making of a Regional Tradition. Delhi: Oxford University Press.

Coburn, Thomas B. (1998). Devī, The Great Goddess. In: Devī, Goddesses of India. California: Univerity of California Press.

Gonçalves, João C. B. (2009). Dizeres das antiguidades – a arquitetura discursiva da literatura sânscrita purânica exemplificada pelo mito da Grande Deusa. Tese de Doutorado, FFLCH/USP.

Van Buitenen, Jonannes A. & Dimmit, Cornelia (1998). Classical Hindu Mythology. Delhi: Sri Satguru Publications.

 

[1] Gonçalves, João C. B. (2009, p. 127).

[2] Gonçalves, João C. B. (2009, p. 127).

[3] “And as shákti, she is regarded as the motivating energy of the universe without which even Śiva is powerless to act” (Van Buitenen, 1998, p. 150).

[4] Van Buitenen, 1998, p. 16.

[5] “In ‘The Cosmic Egg’ it is the human (or animal) fetal sac that is identified with the mountains, the amniotic fluid with the oceans and rivers of earth. From this self-arisen egg the world is produced. And the active agency of its production is identified as the god Brahma, who effects creation by breaking open the egg in the beginning” (Van Buitenen, 1998, p. 17).

*Obs: ensaio produzido durante o curso de Introdução à Literatura Sânscrita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP), em 2015, ministrado por João Carlos Barbosa Gonçalves.