A vontade de chorar

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Chorou porque havia uma necessidade absurda de ser, mas como não sabia quem ser, precisou expurgar a vontade. As lágrimas relutaram, pois não estavam acostumadas a sair. Arderam nos olhos. O sal dele saindo dissolvido na água dele. Ele sendo lágrima. Ele sendo o que podia ser naquele momento: uma reação. A vontade de ser aquilo que nem ele entendia vinha de uma realidade sólida, cinza, aquém do que ele era. O estranhamento e a impossibilidade eram resultados dessa realidade que o aprisionava na vontade de ser, era disso que ela precisava para se sustentar. Ele chorou. Isso não era suficiente, porém. E assim que as escassas lágrimas secaram nas bochechas, ele sentiu a vontade coçar no corpo inteiro. Uma espécie de reação física à curta abstinência de realidade. Que triste, ele tinha que voltar para ela… Passou as pontas dos dedos embaixo dos olhos, certificando-se de que estava seco, mas esqueceu-se de que dentro dele existia uma nascente infinita.