Atravesse na faixa

Ao atravessar a rua, ele só esperava chegar ao outro lado, mas não sabia que teria que lidar com o sentimento que surgiu quando o pé esquerdo se juntou ao direito naquele cimento sujo. Dar um nome àquilo, como narrador, me é impossível, mas tentarei descrever o que ele sentiu: um inconstância universal das coisas, mesclada a um crescente medo das mudanças que estavam fora do controle humano, junto a uma ânsia pelo novo desejado por uma mente controladora, comprimida pela pressa da vida e a instabilidade das decisões alheias, tudo misturado ao trauma do passado e à insatisfação com o presente. Esse sentimento deixou os olhos dele marejados. Marejados, não. Torrenciados. Porque ele teve que parar, por a mão direita na parede e esconder os olhos com a esquerda. A sorte era que a rua estava quase vazia. Ele era apenas um fantasma emocionado na rua escura. Como narrador, eu diria que ele estava afogado no sentimento, pois a torrente durou alguns minutos, mas não o esvaziou. Depois que chorou em público, ele não se sentiu melhor, apenas mais medíocre. E não tinha nada o que ele pudesse fazer, a não ser continuar o caminho até em casa, que foi o que fez.