Ciúme: um estudo (meu) de (do meu) caso.

Pensei em fazer este texto de várias formas: estudando, antes, a literatura especializada; conversando com alguém que trabalha com o assunto; pensei até em não escrevê-lo, mas, no final, decidi falar o que sinto e analisar isso segundo minhas perspectivas – e aqui não quero especificar quais perspectivas são essas, pois muitas vezes, para mim, a moral, a espiritualidade, a literatura, etc., se misturam –, o que, por si só, deixa claro, ao meu ver, que este texto não pretende ser teoricamente rico e preciso, ou mesmo se estabelecer dentro de alguma classificação acadêmica, ou ainda ser considerado uma fonte de conhecimento aplicável a todos que o lerem. Não. A experiência humana é, ao mesmo tempo, segundo entendo, individual e coletiva, única e repetitiva, por isso penso que, ao analisar meus pensamentos, segundo minhas crenças, posso ser de alguma utilidade a alguém, ainda que tudo soe muito egocêntrico ou viciado, pois sou eu me analisando.

A priori, não sou contra os ciúmes, mas não acho que seja a melhor forma de amor.

De início, percebe-se que eu adoro me explicar ou sinto essa necessidade, pois quero ser compreendido ao máximo, ainda não sei ao certo. Mas, o ponto deste texto é o ciúme. Eu não vou nem definir essa palavra tão complexa para nossa mente. Quero partir de um vídeo que vi por acaso de uma entrevista que Simone de Beauvoir concedeu. Ela falava, dentre vários assuntos, sobre amar e ter ciúme. A filósofa francesa dizia que o ciúme é um dos vários tipos de amor e, apesar disso, não era, segundo entendia, a melhor forma de amar. Isso me deixou muito inquieto, tanto que, depois disso, não consegui terminar de ver a entrevista, pois precisava pensar sobre. O assunto, creio, entrou forte em minha mente porque, atualmente, estou em um relacionamento que desafia minha compreensão e minha ação perante o ciúme.

Penso que amar, de fato, não é querer possuir, mas que amar seja querer criar elos com outro ser que não são de possessão, no mesmo sentido de possuir uma roupa ou o que comemos.

A fala de Beauvoir faz muito sentido para mim por dois motivos: eu acredito que ter ciúme é sinal de amor e acredito que ele não é uma forma prudente de amar. Entendo que, para alguns, amar e ter ciúme é algo incompatível e, para outros, os dois estão diretamente ligados. Porém, penso, Beauvoir tocou no ponto-chave: ter ciúme é uma forma de amar. Isso para mim é inegável. Porém, é inegável também que essa forma de demonstrar amor não é a mais interessante ou saudável. E daí falo por mim: ter ciúme toma tempo. Poderia parar aqui, afinal, tempo é precioso e não no sentido capitalista, mas sim no que tange a vida em si, tudo o que temos é tempo e ele não é muito. Mas continuarei a digressão: amar ciumentizando cansa a mente, pois ela se força a inventar mil histórias para se justificar ou para se acalmar, os dois dão muito trabalho. Ter ciúme limita o casal em seu conjunto e em suas individualidades: uma proibição aqui, uma condição ali e por fim terminam os dois presos numa jaula mental de “sim” e “não” que não leva a nada, a ganho nenhum, apenas amplia a sensação de posse.

Mas isso tudo é minha mente teorizando algo, pois na prática é diferente. Este texto é a prática, ainda que pareça apenas teoria. Isso porque, penso, exteriorizar esses pensamentos é parte de um processo de autoconhecimento fundamental para entender a questão e modificá-la. Claro, é importante notar que a mudança é algo que eu quero, justamente por perceber, assim como Beauvoir que, apesar de ser uma forma de amar, o ciúme me faz mal. Para alguém que não o reconhece assim, porém, continuar amando ciumentizando alguém deve estar ok. Evidentemente estou excluindo o outro quando faço essa conclusão, o que, por si só, é um erro, creio. Isso vai depender do que a pessoa acredita ser o amor ou o ato de amar: é algo para você ou para o outro? Essa pergunta, penso, deve ser respondida antes de entrar na questão do ciúme. Por quê? Simples: porque se você acredita que amor é algo que você dá apenas para você, o ciúme faz muito sentido, ter posse do outro faz muito sentido. Do contrário, se você pensa que o amor é algo que você doa ao(s) outro(s), então o ciúme não tem sentido, pois tudo o que você quer é ver o outro feliz e isso geraria, consequentemente, felicidade em você.

Pelo menos é isso que meu cérebro acredita ser verdade, o que é um problema para mim, pois eu não aplico essa teoria na realidade. Ela faz sentido para mim, mas estou longe de conseguir vivê-la. É por isso que escrevi este texto, para começar a praticar a teoria que faz sentido para mim. É um texto raso, como você pôde perceber. Ainda há muitas ideias nele que não desenvolvi, por isso paro por aqui.