Considerações

O mundo não está preparado. É uma preparação. Nada espiritual, nada humano, nada animal, nada vegetal, nada mineral. Superficial. Só um caminho sem fim – que pode ter fim – no qual perder-se é requisito básico e instintivo. O que fazemos, então, com as dores? Há quem vista o que doeu, há quem ignore, há quem é marcado. Ser humano é ser dor, um trauma constante, um chocar-se freneticamente contra o pedaço de mármore em que se quer esculpir beleza. Um esculpir que sangra. Esculpir-se dói. Ser esculpido é pior. E o processo é este: esculpir-se ao mesmo tempo em que tudo ao nosso redor quer tomar as ferramentas para nos esculpir. É não ser mármore que se molda com a ação do tempo, é ser o tempo e moldar-se assim mesmo, de forma abstrata e sem saber o resultado. É ignorância, somos ignorantes. O tempo nos faz assim. Temos o tempo para deixar de ser ignorantes e ele nos persegue para nos tornar ignorantes. Há quem prefira ignorar o tempo, o mármore, as ferramentas e a ignorância. Para eles, resta fazer uma pergunta: como é a vida sem o fardo da obrigação de vivê-la?