Desastre ambulante

Estava caminhando pela grande avenida a passos largos. À frente, um vulto começou a tomar forma: era uma mulher empurrando um carrinho de bebê. Aos poucos, alcançou-a justo no momento em que ela parou na sombra de uma pequena árvore de canteiro e se sentou na mureta, virando o carrinho para o lado. Não conseguiu evitar, queria ver a beleza da novidade que é uma criança, o sopro de esperança que olhinhos sensíveis e pele fina carregam, a alegria que pulsa nos pequenos corpinhos que logo se aventurarão no mundo para transformar os movimentos de aprendizagem em espasmos de dor. Parou em frente ao carrinho já sorrindo para a mulher, como se essa expressão fosse um pedido de permissão para admirar a obra. Porém, a decepção congelou o sorriso. A criança era linda. Gordinha, olhos bem abertos e sem remelas, alegre e com movimentos entusiasmados ­– com certeza começaria a andar antes do normal. Sim, o bebê era lindo, o que decepcionou foi a lógica traiçoeira e maldita que o cérebro processou. Logo, essa criança digna de um porta retrato se tornaria feia. Pensou que bebês muito lindos ficam feios quando crescem. Pensou que crianças muito bonitas ficam feias quando se tornam adolescentes. Pensou que adolescentes muito promissores e encantadores ficam fracassados e intoleráveis quando se tornam adultos. E que adultos, por si só, já são um desastre. Que um dia o bebê fosse um desastre adulto, tudo bem, disso ninguém pode fugir, mas que ali, naqueles olhos puros já se escondessem, segundo essa teoria, a feiura, foi decepcionante. Tanto que, ao olhá-lo e pensar nisso, disse: que criança horrorosa. Um ato falho, talvez. Provavelmente o cérebro se enganou e deu comando à boca para que falasse, quando na verdade só deveria ter pensado. A mulher, que até então sorria, ficou muito séria, levantou-se já muito brava e começou a empurrar o carrinho com pressa, fugindo daquele desastroso adulto que julgou um bebê.