Desespero

Estou tão pesado que mal consigo levantar da cama, ainda que quisesse (e eu até quis por alguns segundos). Já suei, fiquei tonto e meus olhos quase não se abrem. Quando ligo o computador, que ficou do meu lado enquanto eu dormia alguns minutos, as músicas tristes me contaminam. E eu gosto. E as procuro. O peso está na nuca. O peso está nos braços. O peso está nas pálpebras. O peso está nas palavras. Está nos meus sentimentos, que me contaminam. E eu gosto. Eu olho ao meu redor e me desespero. Meu desespero é infundado, mas eu gosto. Eu olho as paredes brancas e me desespero. Olho os objetos sem vida e me desespero. Não posso abraçá-los, eles não podem me abraçar. E me desespera saber que repetirei tudo amanhã e enquanto eu viver. Meu cérebro continua me dizendo que existem coisas piores acontecendo no mundo além do drama juvenil acontecendo no meu apartamento paulistano. Mas tudo o que eu consigo fazer é me desesperar e me odiar por não dar valor ao que tenho e lutar pelos outros. É desesperador respirar pensando em cada músculo que se expande e em cada músculo que se comprime dentro de mim sem eu conseguir impedir todo o movimento para descansar. É desesperador pensar. Pois meu pensamento só caminha em uma direção, uma que precisa de autorização para ser alcançada. Eu já não sinto desespero, acho, sou desespero.