Gula

Enquanto eu estive sentado à mesa, o jantar não foi servido. Até que eu desisti de comer naquele dia e me vi sendo cortado em fatias finas para satisfazer a gula de alguém. Quem? Ele não revelava a face, mascarado a cada mordida barulhenta, batendo os dentes no metal do garfo, numa clara provocação aos meus ouvidos que ainda estavam intactos. Mastigava sem pressa e ruidosamente, misturando bem a saliva com cada sentimento que estava mal passado. Quase cru. Ele comentou que assim era melhor para sentir as reações físicas. Pulsações. Engraçado, ele começou pela minha boca. Agora me lembro, começou pela boca. Eu já não podia falar, ainda que quisesse; e eu não queria. Meu papel ali era de observador, ainda que estivesse sendo servido. Não tinha ninguém comendo com ele… Como era guloso! Eu, ainda que pequeno, sou muito sentimento para uma pessoa só comer. Fiquei esperando ele se fartar antes mesmo de chegar ao meu coração, achei que nem do cérebro passaria. Porém, me enganei. Ele devorou parte por parte, sem deixar nada. Arrotava forte e parecia se sentir cada vez mais faminto. Em momento algum tirou o sorriso do rosto. Ele deixou meus olhos intactos, pois no fim, fez questão de vomitar tudo na minha frente. Vomitou tudo o que sou. Pôs o dedo na goela, induziu o vômito e me devolveu, porém todo despedaçado. Os sentimentos todos mesclados, sujos e semi-digeridos. Eu poderia jurar que não era eu quem ele tinha devorado. Não me reconheci. Ele percebeu e aquele sorriso maldoso se ampliou. Na verdade, ele nunca quis me digerir, só queria atrapalhar minha composição, me impedir de continuar sendo os sentimentos que eu era. Ele conseguiu e percebeu isso. Levantou-se da mesa, mas levou consigo os talheres, na verdade não levou, eles eram parte integral dele, vi como o garfo e a faca se transformaram em dedos enquanto ele se afastava, me dando as costas e me deixando ali, pronto para ser jogado no lixo. Ele se foi sem olhar para trás. E eu só puder ficar olhando para frente, decomposto como estava. E pensar que me sentei à mesa com ele…