Iluminação

Sentou-se no chão do apartamento com as pernas cruzadas e estendeu os braços para os lados de forma que pudesse tocar o piso de madeira com as mãos. Sentiu a temperatura dos tacos. Fechou os olhos e esperou o coração se acalmar, o que levou alguns minutos. Lembrou-se da mangueira que ficava na entrada do sítio do avô. Como era cedo, conseguiu ouvir os passarinhos cantando e batendo as asas ao sair dos ninhos. Sentiu o chão vibrar quando uma manga madura caiu. Sentiu a brisa fria da manhã e até mesmo algumas gotas de orvalho escorrerem pelos olhos. A vaca mugindo chamou a atenção dos ouvidos e ele concentrou-se para encontrá-la. O bezerro dava cabeçadas nas tetas da mãe. Sentiu o gosto do leite na língua e o calor dele no estômago. A grama que pisava estava tão verde que pedia para que alguém corresse sobre ela. Então, saiu galopando sem medo, até se jogar na grama, para abraçá-la com o corpo inteiro. Deu-se conta de que estava próximo do córrego. Concentrou-se para ouvi-lo correr. No fundo, desviou de uma pedra pontiaguda e continuou nadando na água fresca até sentir que o corpo tivesse se acostumado àquela temperatura. Percebeu, então, sua composição química. Era sem sabor, sem cor, sem cheiro e sem forma. Sorriu. Chorou. Despertou.