Playlist: Megh Stock, Ódio e Caos.

Além da literatura, a música sempre me acompanhou. Sempre admirei artistas que compõem o próprio material e acho incrível a capacidade de alguns de expressar na voz uma composição de outra pessoa. Não sei se funciona assim pra todo mundo, mas eu me conecto muito mais rápido ao sentimento expresso em uma canção do que em um livro, por isso ouço música todos os dias, no ônibus, no trabalho, pra me divertir…

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Por volta de 2006, conheci a banda Luxúria, original de São José dos Campos (SP) que explodiu nas rádios com a violenta Ódio. A identificação foi imediata.

Meu ódio é o veneno que eu tomo querendo que o outro morra.

É essa capacidade de expressar o que é um sentimento que me agrada, e a voz da Megh Stock intensifica a mensagem. Grave e arranhada, ela sempre conseguiu me cativar quando quis expor sua revolta e agressividade. Ela pediu por um Artifício Mágico pra poder Fechar os Olhos, porque é difícil fazê-lo quando se sente Suja e Só. Porém, Megh também sabe que não é preciso ficar se chicoteando por qualquer perdão, é melhor ser sincero consigo mesmo, acima de tudo.

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Com o tempo, a banda acabou e a vocalista voltou em 2009 com uma nova proposta e um novo nome. Não entendo de música, mas consigo identificar um ritmo mais parecido com jazz em Da Minha Vida Cuido Eu, um álbum ainda agressivo, mas com mais maturidade e cheio de uma dependência emocional dolorida.

Se eu te convidar pra entrar, aceite. Não me poupe dos seus lisos abraços.

A luta que vejo nesse segundo material é contra o amor difícil de se manter, contra a indiferença. As Mãos que Consertam também indicam A Porta e a Inveja é assumida (e não há problema nisso, pelo contrário, Megh faz algo que poucos têm coragem de fazer, é sincera). Os sacrifícios que o relacionamento parece exigir ficam claros quando ela oferece um pedaço do medo para que o Sofá Emprestado se transforme numa cama, ela não quer brincadeiras e truques, ela quer o sangue, o compromisso, o pacto que não pode ser quebrado, por isso se questiona quantos vícios terá que deixar, porque ela reconhece seu papel na relação. Megh mostra que também é frágil, é Feita de Papel e isso não se dá apenas nas letras, a voz também se suaviza, expressa a dor de ter sua vida resolvida na equação de um problema, de ter sido racionalizada pelo amor.

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Finalmente, em 2011, nasce Minha Mente Está em seu Caos. Se alguém ainda tinha dúvida da capacidade de Megh como compositora, esse álbum é a prova de sua genialidade. A influência do jazz é ainda mais forte, mas a vocalista se desafia mais e canta até um samba. O Rei já não engana, e ela continua a assumir seus próprios erros.

O que eles não sabem é que eu tenho meus pares. Não danço sozinha, nem frequentamos os mesmos bailes.

Agora Megh tem consciência de que as coisas têm um fim, por isso não fala Em Voz Alta, não tem mais o ódio do primeiro trabalho (ou o internalizou), agora ela sabe que não pode pilotar Foguetes, que é melhor apertar os cintos. Megh entende que o tempo passou pra ela, mas também para o amor, por isso aconselha que ele agarre o que sobrou. O caos do outro faz com que ela peça pro coração se calar, pois não quer cair em outra Cilada. Há força, resistência, ainda que hajam Dúvidas, ela sabe que tudo terminará bem.

Luxúria fez parte da minha adolescência, sinto que amadureci junto com a Megh Stock, junto com as rimas cheias de amor e caos, percorri com ela o caminho entre o rock e o jazz, experimentando do samba e reconhecendo que posso fazer tudo, que minha voz se adapta se eu quiser, que minhas palavras podem gritar um conceito poético. Esse é o poder da poesia cantada e acompanhada por instrumentos. Quando você se reconhece no trabalho de uma artista como a Megh, sua vida fica musicalizada, é mágico, é um filme que não termina e você não se sente só.