O gosto

Quando atravessou a rua e entrou na livraria, esperava que, enquanto folheava um livro, o amor de sua vida interrompesse a falsa leitura para dizer-lhe o quanto sua presença era especial. Isso já tinha acontecido. Mas naquele caso, não estava esperando, não foi em uma livraria e não ouviu ninguém dizer que era especial. Esperar é sinal de que as chances daquilo acontecer são baixas, pelo menos pensava assim, pois agora que esperava o amor de sua vida, nada acontecia. Talvez porque esse tipo de amor, realmente, só aconteça uma vez e tudo o que vem depois dele, por mais intenso e duradouro, não é inaugural. Sim, o amor de sua vida tinha também sido seu primeiro. O que isso queria dizer, não sabia. Provavelmente não queria dizer nada, não passava de mais um desses dados vazios que as pessoas gostam de acariciar para tornar o corriqueiro algo especial. As folhas do livro passavam por seus dedos enquanto seus olhos espionavam o movimento na livraria, querendo ser surpreendido por aquilo que deveria lhe ser proibido. E numa dessas corridas de olhos pelo ambiente, se distraiu e cortou o dedo no papel. Sangrou. Era um corte relativamente fundo para aquele tipo de material. Não chegou a manchar o livro. Colocou-o na prateleira e segurou a base do dedo para estancar o corte. Torniquete de carne. Era o que fazia com o coração quando se abraçava na solidão de sua casa, mas não chegava a ser tão deplorável. Lembrando disso, preferiu chupar o dedo até o sangue secar. Pelo menos assim sentia o gosto daquilo que era.