Rachaduras

Quem fechou a porta fui eu? Não lembro. Assumiria a responsabilidade, se me lembrasse. Como se recorda a vida toda? Saber isso me ajudaria a entender o que houve, onde errei, quando me tornei essa porta fechada. Tenho a impressão, às vezes, de que a fecharam por mim, mas não posso simplesmente dizer isso sem antes ter certeza. Eu não consigo achar a chave, nem a tranca, nem a maçaneta. Parece que, além de estar fechado, fiquei cego. Sei, com certeza, que não estou oco. A casca da porta esconde um conteúdo muito denso, por isso é difícil para quem se aventura a quebrar-me para conhecer meu interior. Os mais corajosos e dispostos conseguiram entrar, mas logo saíram, porque a densidão pesou no brilho que carregam no ego. Cansaram-se da escuridão que a porta guardava. Às vezes me confundo, não sei se sou a porta ou o quarto. A ambiguidade sempre me assombrou. A unidade sempre me desejou. Sei, porém, que é a dualidade que questiona, que faz evoluir, mas ela cansa depois de um certo tempo. Isso porque ela não pode ser a única companhia que se tem. No meu caso, foi. É. E eu fico me analisando, encarando a porta, vivendo no quarto escuro do meu ser. E não saio nunca. Parece que viciei na dualidade que me mata a cada dia. A morte é cativante, por isso vicia. Soa mórbido, claro, mas sou do tipo que assume os erros que comete e isso é um erro. No fim, por assumi-los, me sobra a porta fechada e o quarto escuro, ainda que não vazio, pois estou nele, e como o interior denso da porta, sou complexo, duro, porém quebrável.