Reflexões: Sobre A Alma e O Corpo.

The Shadow, 2010, por Steven Kenny. The Shadow, 2010, por Steven Kenny.

Quando me olho no espelho, não vejo o reflexo do meu corpo físico. O que vejo é minha alma. Queria que ela se refletisse sem o material, mas isso não é possível. E, diferente do físico, as feridas da alma nunca se curam. A alma é uma dor eterna. Quando me vejo ali, sei de cada cicatriz, de cada gota de sangue que foi tirada da minha alma, sei de cada momento em que ela chorou e se sentiu sozinha. Quase sempre, olho pra baixo, em busca do corpo físico, pra ver se as mesmas dores estão ali. Em algumas vezes existe uma correspondência, mas que já foi melhor tratada. Em outras, não se repetem. Tudo dói: corpo e alma. Mas a dor da alma se perpetua infinitamente no tempo da mente, expande seu poder, domina cada espaço livre que a gente deixa pra guardar algo novo que gostamos e não deixa mais nada se apossar do que agora é dela. E isso acontece porque a alma tem um potencial gigantesco pra qualquer coisa, seja algo bom ou ruim. Ao mesmo tempo, a alma é frágil e indefesa. Ninguém te ensina a cuidar da alma. Religião? Não, isso machuca a alma, não se engana não. A religião tortura, coloca a alma amarrada num tronco e vai sangrando ela até esvaziar, daí injeta uma água suja nas veias e faz a alma virar santa. Já passei por isso, e quanto mais santo eu me tornava, mais minha alma murchava e mais eu odiava meu corpo físico. Eu não sei como deixar a alma bem. Hoje eu acho que a natureza da alma é ficar mal. Ela nunca vai ficar bem, mas a gente tem que ficar correndo atrás disso. E isso me cansa. Eu desisto quando canso. Eu entendo que a intenção é não nos dar nada de mão beijada, só não sei o porquê de ser assim. Quem decidiu isso? Não, eu não consigo ver isso como algo justo. Tem gente de religião aí que acha que tá tudo certo de ser assim, mas eu não entendo essa coisa de “aprender”. Acho ridículo, acho pouco, ineficiente, sem propósito. É tudo rondado de incerteza, já percebeu? E ao invés de parar de criar mais incertezas, a gente mergulha nas que já existem e se afunda nelas. Burrice! Podíamos parar de criar coisas, sentar e acertar tudo pra todo mundo, sem que a gente precise machucar a alma no caminho, porque ela é muito frágil, pelo menos a minha é… e eu não sei até quando ela vai aguentar. Quando a alma desiste, o corpo físico some. A alma dá cabo do corpo. A alma pode parecer egoísta, mas o corpo entende. Querendo ou não os dois estão conectados, um não vive sem o outro, um entende, tem compaixão pelo outro. Eu vejo esse momento como uma redenção, como liberdade, a alma evapora e o corpo, num tempo diferente, também. O corpo faz isso de bom grado, porque sabe que a alma precisa daquele pequeno momento de liberdade e felicidade, porque ele sabe que é ele quem traz as dores pra alma, porque sem ele a alma não presenciaria esse mundo. Não, ele não se sente culpado, mas ele entende que é difícil. A alma? Claro, ela sabe que isso parece egoísmo, mas também sabe que a conexão entre ela e o corpo é estreita, eles se conhecem bem, foram feitos um pro outro, por isso ela acompanharia ele aonde for. Se ele pedir, ela não vai desistir. Ele só tem que pedir. E daí, se a alma desiste de seguir adiante com o desligamento, o corpo vai carregar a alma, vai ter de animar ela, vai tentar curar. O corpo é uma possibilidade. O problema é que ele sabe que corre grandes riscos de machucar ainda mais a alma, por isso, muitas vezes, ele apenas aceita o caminho final. Quero parar de me olhar no espelho, pra ver se minha alma se mescla bem ao meu corpo e aprende a se curar melhor. Mas será que devo fazer isso? Será que devo deixar ela se perder no corpo e deixar de ser autoconsciente? Eu quero que ela fique bem, acima de tudo eu tento curá-la. Se ela se cura, o corpo se alegra. Também tem o caminho inverso, mas ele não funciona pra todo mundo. A alma dói, o corpo dói, é inegável. Devo aprender a lidar com a alma e o corpo, com a dor, ou com tudo?

*Reflexões pretende capturar o momentâneo. É um texto que questiona, mas não propõe resoluções. É um pedido de ajuda, quer entender o que existe.