Resenha: Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço (Adriana Negreiros)

mb_resenha

Apesar de muitas pessoas esperarem ler uma biografia de Maria Bonita, é necessário atentar-se aos outros dados do nome do livro. De qualquer forma, faz total sentido ele carregar o nome da Rainha do Cangaço, pois, imagino, a intenção é enfatizar como a realidade é romantizada e machista. Afinal, o nome usado pela cangaceira era, na verdade, Maria de Déa, e sabemos que a beleza é um atributo regularmente dado às mulheres.

Sem dúvidas, o desafio da autora foi, além de encontrar materiais, confrontá-los para fazer uma análise feminista sobre o cangaço, comparando a vida urbana à de cidades do interior do nordeste, o que dá importância histórica ao livro. Além disso, ela expõe a imagem de Lampião como um homem sanguinário e sem escrúpulos que tinha interesses egoístas, indo de encontro com o imaginário comum de que havia um propósito maior em seus atos, tornando-o um herói. Da mesma forma, é curioso conhecer a influência de Maria de Déa sobre o marido – há dados que narram situações nas quais Virgulino teria cedido à vontade de sua esposa. Segundo a pesquisa da autora, Maria foi uma das poucas que quis entrar para o bando por vontade própria e inaugurou a presença feminina no cangaço.

A história das mulheres no bando de Lampião não tem nada de bonito, como sugere o nome dado pela polícia e a imprensa a Maria de Déa. Pelo contrário, o que nos indica a pesquisa de Adriana Negreiros é que a maioria delas era raptada pelos cangaceiros ainda quando crianças, algumas entre 12 e 13 anos. Nesta idade, eram estupradas por eles e transformadas em verdadeiras propriedades. Dentre os costumes dos cangaceiros, caso o marido de uma das mulheres morresse em combate, um dos companheiros do bando poderia escolher ficar com a viúva, do contrário, ela era expulsa ou até morta. Para aquelas que eram expulsas, a vida pós-cangaço não era menos violenta, pois além de rejeitadas pelas famílias, acabavam presas e estupradas pelos policiais.

Por fim, é importante destacar a capacidade narrativa da autora, impecável e cativante. Entrelaçando fatos sutis que denotam o extremo machismo a que eram expostas as mulheres do cangaço com dados históricos, Adriana Negreiros, consegue transformar um livro jornalístico em uma leitura fluída e questionadora.

Nota: 5 estrelas.

Comprar: Ebook | Comum.