Resenha: Paisagens da memória (Ruth Klüger)

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Pensei muito antes de resenhar esse livro, pois o assunto do qual ele trata é muito delicado e, penso, exige grande bagagem literária para que não se cometam erros promíscuos. Porém, a quantidade de questionamentos que “Paisagens da memória – Autobiografia de uma sobrevivente do Holocausto” gerou em mim é muito significativa para não tentar convencer vocês a lê-lo.

No livro, Ruth Klüger se autobiografa. Tarefa complexa e de grande coragem, feita com muitos questionamentos e sensibilidade. Logo nos primeiros capítulos, somos indagados: afinal, é correto, de certa forma, celebrar o que se produziu em cima do assassinato de milhões de pessoas? Nesse sentido, a autora se choca com muitos estudiosos, incluindo sobreviventes que, assim como ela, se expuseram e deram origem à já mencionada “literatura de testemunho”.

São imutáveis os sentimentos alimentados pela memória.

Ainda, Ruth questiona a validade da transformação de alguns campos de concentração em museus, o que sequer tinha passado pela minha cabeça, mas fez muito sentido. Ao mesmo tempo, ela expõe o patriarcado presente nos relatos, na sociedade e na história de forma inteligente e sagaz.

Além disso, imerso na poesia da autora, o livro é, por vezes, muito doloroso. Nele, acredito que Ruth se expôs mais do que eu esperava, inclusive entregando poemas para elucidar passagens e esclarecer sentimentos. Sendo assim, não há outra forma de finalizar essa resenha, senão agradecendo a autora por ter permitido nossa entrada ao seu museu particular, no qual ela guardou memórias que fazem chorar, questionar e aprender.

Não saí dessa leitura com uma opinião formada, mas modificado pelas perguntas que surgiram, agora mais específicas e coerentes, sobre um acontecimento que mexeu e mexe com as estruturas da nossa sociedade.

[Biografia]

Primeira mulher chefe do Departamento de Filologia Germânica da Universidade de Princepton, Ruth Klüger é conhecida por sua contribuição acadêmica, tendo publicado livros sobre história e crítica literária.

Com “Paisagens da memória”, Ruth se torna, também, referência na literatura de testemunho, recebendo, dentre várias homenagens, o Prix Mémorie de la Shoah, da Fondation du Judaïsm Français. Atualmente, é professora emérita na Universidade da Califórnia, Irvine.

Foto: UC San Diego Library.
Foto: UC San Diego Library.

Quando a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista, Ruth tinha apenas seis anos. De família judia, ela logo viu seu mundo desmoronar com as proibições, fugas e mortes que o Terceiro Reich impôs sobre sua comunidade.
Dentre os campos de concentração pelos quais passou, Ruth conseguiu se salvar no último segundo de Auschwitz-Birkenau.

Após o fim da guerra, refugiou-se nos Estados Unidos com a mãe, retornando anos depois à Alemanha, onde começou a escrever sua autobiografia.

Fonte: Paisagens da memória, Editora 34.