Sozinho.

cidade

Olhar a imensidão dessa cidade me deprime.
O meu medo é ficar sozinho e ter que me vencer.
Quando eu fico sozinho vem aquela dor no peito,
vem as lágrimas que ninguém vê,
vem você,
vem eles todos me desafiar,
vem quem nunca existiu,
vem cada coisa que eu nem sei explicar…
E eu lembro daquela frase que o Riobaldo diz:
“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”,
e sigo querendo acreditar que serei mestre de mim mesmo,
ainda que tudo à minha volta me convença que isso é impossível,
ainda que gritem horrores em meus ouvidos que tão humildemente pedem uma harmonia calma e reconfortante,
porque não existe conforto na vida:
um dia se sorri e no outro te tiram o coração com a mão,
um dia o sono vem e no outro se vê o sol nascer.
E ainda querem que eu veja beleza nisso,
que eu não julgue o sol quando se põe,
que eu abrace a noite e filosofe com o luar,
mas estou sozinho…
E quando estou sozinho fico assim:
meio morto,
me desrespeitando
e julgando a imagem que vejo nas fotos,
imagens que vejo no reflexo da janela,
mescladas com a escuridão dos meus olhos,
que são resultado da noite solitária que me deram por eu ser quem sou,
que me deram por eu ser assim, sozinho…
E quando fico sozinho nesse apartamento vejo a tristeza rondar o prédio e entrar pela janela do décimo sétimo andar,
que é onde ela se sente em casa:
na minha casa:
sozinha:
eu e ela…
E quando ela fica sozinha comigo eu me transformo nela
e fico sendo tristeza.
Enormemente triste,
sozinho com ela repousada no meu peito,
me abraçando,
com a mão no meu ombro vendo TV,
me fazendo cafuné,
querendo que eu vá pra cama,
que eu saia da cama,
que eu me jogue do décimo sétimo andar…
Porque quando fico sozinho ela me faz pensar nessas soluções difíceis de se concretizarem,
porque tudo sempre pode dar errado:
milagres podem acontecer na hora errada,
fins podem não ser consumados.
E ela fica tagarelando,
porque sabe que quando estou sozinho sou como ela:
triste
e convincente.
Por isso me deito no chão, sinto a dureza e a frieza reais
para esquecer aquelas que criaram em mim
e que me fizeram aceitar a tristeza que escalou até minha janela.
E deixo o corpo doer e a energia minguar
até o sono chegar.
E me levanto lentamente
para repousar nos lençóis e travesseiros que cheiram a outra pessoa
para não ficar tão sozinho
como agora.