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Às vezes só vem. Vem como um êxtase. Vem como um ar pesado que para em volta de mim e me impede de respirar. Vem como uma tontura, como se me faltassem os eixos de repente. Vem como uma vontade louca de chorar até meu corpo secar e usar o próprio sangue para espremer pelos canais lacrimais. Vem como uma dor de cabeça que me enfrenta noite adentro, dia afora, querendo me deitar na cama, na mesa do trabalho, querendo me encostar no banco do ônibus, no espelho do elevador. Vem como um cansaço congênito. Vem como uma ignorância do que se passa ao meu redor. Vem como saudade da minha família. Vem como nostalgia pela minha infância. Vem como medo de não conseguir amar. Vem como um desejo de mudar tudo, incluindo o desejo de mudar. Vem como uma vontade estranha de sair sem rumo, apenas para deixar o presente para trás, para transformar o presente em passado logo e saber que ele já foi, que logo um novo futuro chegará. Vem como um ato de rebeldia com o qual eu apenas me desrespeito para me tornar vítima do que o mundo me diz ser normal. Vem como um machucado na pele que eu quis provocar para me distanciar do normal e sentir um pouco o que é ter piedade, ainda que ela não bata à minha porta. Vem com o sono, me fazendo suar na cama, demonstrando como meu corpo está desesperado para que ela vá embora logo. Porque meu corpo sabe que ela chegou, ele sente aquele fluir diferente do sangue, sente aquela vontade diferente nas pernas, sente mais ardor nos olhos, mais frio na barriga, mais solidão na essência, menos importância na vida. Meu corpo sente que, às vezes, ela só vem, sem aviso, quando vejo, já está em mim, já é em mim, já é. E eu quero que ela vá, mas também quero que ela fique para me tomar de vez, pois é exaustivo saber que ela vem, faz o que quer de mim e vai embora, quantas vezes quiser. Prefiro que ela venha, se instaure e seja. As indefinições dela, porém, é o que a tornam tão avassaladora, tão dona de mim. Eu não consigo resistir. Às vezes só vem. E eu nem tenho o que fazer.