Vamos destruir o fascismo

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Posicionar-se politicamente pode ser perigoso. Sempre será. Independente do momento histórico. Porém, atualmente, é claro que, no Brasil, temos um sério problema de empatia e interpretação de texto, coisas que, logo, poderão transformar-se em um sistema extremista de censura.

Assim que o nosso novo presidente foi eleito, semana passada, tentei me afastar das informações que imaginei que chegariam até mim, todas baseadas em três pilares: tristeza, medo e resistência.

Fiz isso, pois apesar de acreditar que a vitória de um candidato fascista seria a nossa realidade desde o início da campanha eleitoral, quando ela se concretizou, meus sentimentos se suspenderam na minha mente. Fiquei numa espécie de limbo, principalmente porque o terror havia sido concretizado. E agora? Quem eu seria a partir de então? O que eu defenderia? O que realmente poderia acontecer?

Algumas dessas perguntas têm respostas abstratas. O que sei é que encontrei um erro grave, segundo minha visão, no comportamento daqueles que estavam tentando amenizar a dor de ver o fascismo ascender.

Horas após o resultado desastroso, recebi um manual contendo dicas de segurança para a comunidade LGBT. Como se nós já não soubéssemos que corremos riscos. Que tipo de estado mental estamos tentando criar com um manual desse? Entendo que existe um pensamento de carinho e cuidado, mas isso é um famoso “gatilho emocional”. É preciso pensar duas vezes antes de repassar algo assim. Realmente, todo cuidado é pouco quando o fascismo está crescendo, o que não significa que tenhamos que desrespeitar os limites alheios.

Não quero dizer que devemos viver num conto de fadas, no qual nos recusamos a ver a verdade. A violência existe e provavelmente aumentará. Como criamos a resistência (palavra repetida exaustivamente desde início de outubro) é o que deve ser nosso foco.

Assim que o fascista teve a vitória decretada, vídeos de militantes pedindo calma e reforçando que a luta não acabou pipocaram, textos imediatistas sobre como devemos nos comportar se multiplicaram. Sim, todos nós já esperávamos que o resultado fosse o que foi, mas essa pressão comunitária é realmente maçante e amedrontadora.

Entendo que a democracia exige muito de nós, não me recuso a isso, aceito. Não me serve, porém, a forma como estamos desesperados, sustentando o medo. Ele existe, é um fato. Acho que é por todos sentirmos medo que muitos de nós se precipitaram em repetir o discurso de pedir calma e resistência.

Andei me questionando, não conclui nada (nem deveria), mas o caminho que estamos seguindo – este de manuais de comportamento LGBT – é perigoso, pois não ensina os outros e nos enclausura. Essas iniciativas não criam empatia nas pessoas fora da comunidade, às vezes nem dentro dela. Isso gera medo dentro de nós, sustenta o sentimento e, finalmente, nos deixa fracos, ainda que pensemos que ficamos fortes. Andar de mãos dadas na rua, beijar quem amamos, isso é nosso, não podemos recuar, sem dúvidas. Parece-me, porém, que devemos expandir esse conceito para além de nós.

É por isso que decidi viver o medo e não tentar extingui-lo. Não existe um manual de sobrevivência definitivo. Não vou me posicionar indiretamente a favor do medo, sustentando um comportamento diferente do que eu tenho até agora, levei anos para construí-lo, doeu demais me tornar quem sou. Chega de pedir calma e resistência, já fazemos isso há anos simplesmente por sermos LGBT. A mim cabe mais o discurso “perdemos essa, mas vamos destruir o fascismo”.

São Paulo, 1 de novembro de 2018.